Quem não cola…

 

Você já ouviu falar que “quem não cola não sai da escola”?


Foto adaptada de quinn.anya

Foi na primeira série do ensino fundamental que, pela primeira vez, colei em uma prova! Lembro que era um ditado, na qual fomos pegos de surpresa pela a professora, uma senhora de seus trinta e poucos anos.
Nessa época eu estudava em um colégio municipal que era muito próximo a uma comunidade carente. A sala tinha umas 40 crianças e, dentre elas, um menino chamado Henrique, que eu realmente não ia muito com a cara. Esse garoto era mais alto do que a maioria dos meninos, mas eu o achava meio bobão, sempre querendo tirar vantagem, dizendo que as coisas dele eram melhores, mas não era um “muleque do mal”, não até o fatídico dia…

Nesse dia ilustre, do “ditado surpresa”, a professora entregou uma folha na qual colocamos o nome da escola completo e o nosso nome, além do “São Paulo, dia tal do mês tal de 1900 e bolinha”. E então ela começou a ditar palavra por palavra. Lá pela terceira ou quarta palavra, uma professora da sala ao lado resolveu fazer uma visitinha para a minha professora e lá ficaram as duas, batendo um papo na porta da sala. Eu lá, impaciente para terminar logo aquele transtorno e as duas dondocas lá, papeando.

Enquanto a professora dava o ditado, notei que ela lia um papel igual ao que ela tinha nos dado e que, durante o seu bate papo, ela o tinha deixado em cima da mesa. Como eu não sabia nada daquelas palavras que ela estava ditando, tive a brilhante idéia: vou olhar o papel dela e ver se lá estão as palavras que ela está ditando! Lá fui eu, todo pimpão, até a mesa da professora; como ela estava numa conversa acalorada, nem se deu conta que eu tinha ido até lá. A folha estava virada para baixo e… eu a desvirei! E lá estavam todas as dez palavras que ela iria ditar para a nossa sala!!!

Fantástico, li as primeiras palavras e vi, mais ou menos, o que eu tinha errado; voltei para a minha carteira e corrigi o que eu lembrava. Não contente, pensei: “ela ainda está lá, conversando… acho que não vai perceber se eu voltar até a mesa dela de novo” e lá fui eu, novamente. Levantei a folha, olhei a próxima palavra e voltei para minha carteira e escrevi a palavra. Foi tão fácil que resolvi voltar e olhar a outra palavra e assim eu fiz, com quase todas as palavras.
Como eu não tinha um poder de memorização tão grande assim (não que hoje eu tenha), eu ia e voltava com apenas uma palavra na cabeça! Eram palavras complicadas e eu não conseguia decorá-las muito bem, então repeti o processo de ir, ler, vir e escrever algumas vezes. E foi então que Henrique, o dito cujo, percebeu que eu já tinha várias palavras escritas na minha folha e se deu conta do que eu tinha feito durante as minhas saidinhas da carteira. Ele tentou ver o que eu tinha escrito, mas eu não deixei, é claro! Quem foi que teve o trabalho de ir até lá?

Foto por dsakugawa

Enfim, depois de alguns minutos de uma bela conversa bastante animada, a professora se deu conta que não estava numa festa, mas, sim, no meio de uma sala de aula, no meio de um ditado. E quando resolveu começar a ler as benditas palavras que restavam, surge então uma vozinha esganiçada: “Tiiiiiia, ele já fez todo o ditado!”…
Aquele maldito do Henrique tinha acabado de me dedurar, na cara dura! Eu queria espancar aquele muleque, mas o medo da professora que veio babando com os olhos arregalados até a minha carteira foi muito maior do que a minha fúria. A professora pegou minha folha de ditado, viu que eu tinha “previsto” algumas palavras e perguntou para mim o que eu tinha feito. Foi sincero (todas as crianças nessa idade são cruelmente sinceras) e disse o que eu tinha feito.

Resultado: o mulher me deu um enorme ZERO com letras garrafais em vermelho! E aquilo me perturbou até o final do ano…

Achei que ela iria entrar em contato com meus pais e esse era o meu maior medo, mas não falou nada. Meses depois, ela encontrou minha mãe na escola quando ela tinha ido me buscar. Conversaram durante algum tempo e eu lá, morrendo de medo de tomar umas chineladas da minha mãe, mas nada ocorreu. Hoje, acho que a professora não contou nada por ter percebido que eu poderia contar a minha versão: de que ela tinha ficado de bate-papo e tinha deixado as respostas da prova lá, escancaradas.

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